Entrevista | Plataformização do vício | Plataformas e Mercados Digitais
Data Privacy Brasil integra discussão sobre os impactos das bets no Linhas Cruzadas, da TV Cultura
Rafael Zanatta, Diretor executivo da Data Privacy Brasil participou do episódio exibido em 27 de agosto, que discutiu vício, compulsão e a relação entre vulnerabilidade humana e plataformas digitais.
O episódio de 27 de agosto do Linhas Cruzadas, da TV Cultura, discutiu a relação entre vício, compulsão e a facilidade de ceder a comportamentos que podem produzir danos. O debate, conduzido por Thaís Oyama e Luiz Felipe Pondé, passou por diferentes formas de dependência e chegou ao ambiente digital com a participação de Rafael Zanatta, diretor executivo da Data Privacy Brasil.
Convidado para discutir o funcionamento das plataformas de apostas, Zanatta chamou atenção para a dimensão que o problema das bets alcançou no Brasil. Segundo ele, a sociedade brasileira negligenciou o avanço das apostas online enquanto as empresas ampliavam sua presença em diferentes espaços, com patrocínios a times e estádios e participação de influenciadores, mas agora o problema é cada vez mais exposto.
A fala parte de uma mudança na percepção sobre as bets. A expansão das plataformas deixou de ser apenas uma questão relacionada à liberdade individual ou ao entretenimento e passou a produzir efeitos econômicos e sociais que atingem diferentes dimensões da vida coletiva.
Durante a conversa, Zanatta mencionou estimativas de mais de 30 milhões de brasileiros apostadores e dados sobre o endividamento desse público. Também relacionou o avanço das apostas ao aumento da demanda por atendimento relacionado a transtornos decorrentes do vício, com impactos sobre o Sistema Único de Saúde (SUS). Na avaliação apresentada no programa, os gastos públicos com saúde podem superar a arrecadação obtida pelo Estado com a tributação das bets.
Para Zanatta, esse cenário mostra os limites de uma abordagem que trate as apostas apenas como um mercado a ser regulado e tributado. A expansão das bets produz custos que não aparecem somente nos resultados financeiros das empresas ou na arrecadação pública, mas também no endividamento das famílias, na saúde e nas condições de vida das pessoas afetadas pelo comportamento compulsivo.
O problema, segundo ele, também não pode ser atribuído exclusivamente às escolhas individuais. Ao ser questionado sobre a responsabilidade do governo, Zanatta ampliou a análise para diferentes agentes envolvidos na expansão das apostas. “A autocrítica não é só sobre governo”, afirmou, mencionando os mercados de influenciadores, a sociedade civil e o sistema de mídia. Para o pesquisador, a presença das bets é sistêmica e alcança diferentes espaços da sociedade brasileira.
Essa leitura também orienta o projeto Plataformização do Vício, da Data Privacy Brasil. A iniciativa investiga a expansão da economia do vício por plataformas em mercados como apostas esportivas, bets, mercados de previsão e jogos com caixas de recompensa. A pesquisa busca compreender a relação entre esses modelos, violações de direitos digitais, endividamento das famílias e a erosão de um ecossistema informacional justo.
O conceito de plataformização do vício descreve a transformação de comportamentos repetitivos de risco em sistemas contínuos, escaláveis e otimizados para maximizar o engajamento. A pesquisa da Data analisa, entre outros elementos, a personalização algorítmica, os ciclos contínuos de engajamento, o feedback variável, a monetização por recorrência e a datificação intensiva do comportamento.
Na participação no Linhas Cruzadas, Zanatta também apresentou uma perspectiva de resposta ao problema. Em diálogo com a mobilização Brasil Contra Bets, defendeu que as apostas sejam tratadas a partir de uma perspectiva de saúde pública, em uma abordagem semelhante à adotada historicamente para o tabaco e o álcool. Para ele, não se trata de eliminar as apostas da sociedade no curto prazo, mas de reduzir a presença e a exposição a esses produtos e adotar formas estruturais de redução de danos.
A Data Privacy Brasil aderiu à mobilização Brasil Contra Bets, que apoia o PL Brasil Contra Bets, apresentado na Câmara dos Deputados sob o nº 2478/26 e no Senado Federal sob o nº 2470/26. A proposta trata as bets como questão de saúde pública e prevê medidas relacionadas aos jogos de alto risco, à publicidade de apostas online e à responsabilização de agentes envolvidos na circulação, recomendação, impulsionamento e monetização desses conteúdos.
A participação de Zanatta integra, portanto, uma agenda mais ampla de pesquisa e incidência sobre os impactos das plataformas de apostas. A discussão apresentada no programa parte da experiência individual da compulsão, mas chega a uma questão coletiva: quais responsabilidades devem ser atribuídas às plataformas, empresas, agentes de publicidade, poder público e demais atores que participam de um ecossistema capaz de ampliar comportamentos de risco?
Assista à participação de Rafael Zanatta no episódio “O VÍCIO DAS BETS”, do Linhas Cruzadas, exibido pela TV Cultura em 27 de agosto de 2026.
Conheça o projeto Plataformização do Vício, da Data Privacy Brasil.
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