Evento | Ampliando as vozes do Sul Global na formulação de políticas de direitos digitais | Governança e Regulação

Data Privacy Brasil participa do primeiro Diálogo Global sobre Governança de IA das Nações Unidas

 Data Privacy Brasil participa do primeiro Diálogo Global sobre Governança de IA das Nações Unidas

Nos dias 6 e 7 de julho de 2026, em Genebra, Suíça, ocorre o primeiro Diálogo Global sobre Governança de Inteligência Artificial no âmbito das Nações Unidas, e a Data Privacy Brasil participa junto a parceiros do Sul e Norte Global, e de setores da sociedade civil, governamentais e de organizações internacionais. Junto da Aliança do Sul Global, estabelecemos algumas prioridades que podem ser lidas aqui e, em âmbito institucional, vamos priorizar três pontos a serem levados ao Diálogo.

O primeiro ponto se relaciona com questões de sustentabilidade. A expansão acelerada de infraestruturas de IA tem tornado urgente o reconhecimento e a ação perante os impactos socioambientais associados a essas tecnologias, que incluem: a exploração intensiva de recursos como água, energia e minérios, assim como o aumento da poluição sonora e atmosférica e da produção de lixo eletrônico. Conforme alerta o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), um dos principais desafios nesse campo é avaliar o impacto do ciclo de vida da IA, abrangendo software e hardware, assim como seus efeitos diretos e indiretos – algo que se relaciona também com gargalos de transparência na indústria.

Nesse contexto, temos advogado pelos direitos coletivos de acesso à informação como um pilar fundamental para a promoção da justiça socioambiental e tecnológica. Essa defesa parte do reconhecimento do acesso à informação como uma condição para a garantia de outros direitos fundamentais, inspirado por legislações brasileiras, como a própria Constituição Federal, a Lei de Acesso à Informação (LAI) e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), e, a nível internacional, o Acordo de Escazú. No campo da IA, isso implica na promoção de mecanismos de transparência ativa e passiva, aplicáveis a entes públicos e privados, que assegurem a divulgação de informações sobre o impacto socioambiental dessas tecnologias. Isso inclui políticas de priorização de indicadores acessíveis sobre consumo de água e energia, emissões e descarte de resíduos, acordos de compra de energia, entre outros aspectos.

Nossa segunda prioridade é alinhar as narrativas de governança de dados e de direitos humanos, já que temas como privacidade e proteção de dados pessoais são basilares em uma governança cujos dados são utilizados para sistemas de Inteligência Artificial, sendo atividades de risco. Assim como o Diálogo Global, o Pacto Global Digital da ONU também gerou um outro espaço importante que é o Grupo de Trabalho de Governança de Dados, dentro da Comissão de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento.

Assim, é importante que esses fóruns estejam coordenados e que os esforços multissetoriais considerem a abordagem de justiça de dados, ou seja, não considerar apenas a dimensão técnica dessa governança, mas também as dimensões sociais e econômicas. Um entendimento necessário sobre governança de dados é que ela deve ter como base fundamental os princípios internacionais de direitos humanos (como liberdade, privacidade e dignidade), e a partir disso, cada país deve ter autonomia para elaborar sua própria abordagem de acordo com contextos específicos, mas sempre permitindo ampla participação multissetorial. Ou seja, é crucial que essa governança estabeleça mecanismos formais de participação, promovendo também transparência e prestação de contas. A participação da sociedade nessa governança permite melhor uso dos dados para políticas públicas e desenvolvimento, promovendo inclusão e reduzindo assimetrias de poder.

A terceira prioridade parte do reconhecimento de que os danos provocados por sistemas de inteligência artificial não são riscos abstratos ou futuros, eles já estão acontecendo e afetam, de formas distintas, pessoas, comunidades, instituições e processos democráticos. Nesse sentido, lançamos recentemente a Biblioteca de Danos em IA, uma iniciativa do projeto IA com Direitos. A Biblioteca reúne, sistematiza e torna acessíveis evidências concretas de impactos negativos causados por sistemas de IA no Brasil, com o objetivo de qualificar o debate público e subsidiar discussões regulatórias mais informadas.

Os casos mapeados demonstram que os danos da IA atravessam diferentes dimensões da vida social, incluindo danos democráticos, danos psicológicos e sociais, danos socioambientais e econômicos, e danos aos direitos fundamentais. É fundamental reconhecer que esses danos não se distribuem de forma igual, uma vez que os sistemas de IA operam em relações profundamente assimétricas de poder. Nesse contexto, defendemos que o Diálogo Global de Governança de IA incorpore o entendimento sobre os danos já produzidos por sistemas de IA como ponto de partida para a construção de respostas regulatórias.

A Data Privacy Brasil segue acompanhando este e outros desdobramentos no sistema ONU e em demais fóruns internacionais sobre a governança de Inteligência Artificial.