Entre janeiro de 2025 e abril de 2026, Observatório IA nas Eleições identificou 18 casos de avatares gerados por inteligência artificial usados para comentar política no Brasil. Em 61% das ocorrências, os conteúdos não traziam qualquer sinalização de que haviam sido produzidos com tecnologia. Em 78% dos casos, os perfis sintéticos disseminaram alegações enganosas sobre políticos ou instituições democráticas.

O levantamento é uma iniciativa da Data Privacy Brasil e do Aláfia Lab, voltada a identificar, sistematizar e analisar como a inteligência artificial generativa pode interferir nos processos eleitorais e na integridade da informação.

Boa parte do debate público sobre inteligência artificial e eleições concentrou-se, até aqui, em deepfakes de pessoas reais, como vídeos adulterados, áudios manipulados e imagens falsas de figuras públicas. O levantamento do Observatório expõe um problema diferente, ainda com menos atenção regulatória: a fabricação de personagens inteiros, aparentemente humanos, projetados para atuar no ambiente político.

Esses personagens assumem o papel de eleitor comum, comunicador independente, liderança comunitária, apresentador de telejornal, apoiador espontâneo. O que o usuário interpreta como reação espontânea pode ser, na verdade, uma construção artificial feita para reforçar determinada narrativa.

Um caso representativo é o da influenciadora Dona Maria, uma mulher negra gerada artificialmente para criticar o governo brasileiro. O perfil foi localizado em agosto de 2025, no X, antigo Twitter, em um vídeo que simulava uma manifestação em frente a uma agência do Banco do Brasil. Na gravação, a personagem chamava o presidente Lula de “chefe de organização criminosa”. Desde então, a conta acumulou mais de 400 vídeos e passou a circular em outras plataformas.

As redes com maior concentração de casos são TikTok e Instagram, com seis casos em cada, seguidas pelo YouTube, com três. Também foram identificados conteúdos no X, no Kwai e no Facebook.

O levantamento ocorre em um contexto regulatório ainda em construção. O TSE realizou consultas sobre IA nas eleições de 2026, enquanto a ANPD segue responsável pelo tratamento de dados pessoais que sustenta essas ferramentas. O ponto delicado está em definir quem responde pela circulação de avatares sintéticos quando seus danos à integridade informacional e às instituições democráticas se tornam visíveis.

A questão da transparência reforça essa preocupação. Nos sete casos com aviso, ele apareceu de forma fragmentada, por marcadores, marcas d’água ou hashtags, e se perde fora do contexto original. Por isso, o debate regulatório precisa incluir rastreabilidade, avaliação de impactos e responsabilização.

Com as eleições gerais marcadas para outubro de 2026, o período de maior risco para a circulação desse tipo de conteúdo já está em curso. O levantamento divulgado hoje cobre os primeiros 16 meses de monitoramento, e novos casos serão incorporados ao repositório à medida que forem identificados.

O desafio regulatório vai além da rotulagem de conteúdo sintético. Um avatar político é uma identidade completa, com trajetória, estilo e posicionamento construídos para produzir efeito no debate público. Entender como essas figuras são fabricadas, como circulam e quem as produz é parte do trabalho que o Observatório IA nas Eleições se propõe a fazer.

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