As eleições de 2026 já estão sendo marcadas por uma presença cada vez maior da inteligência artificial na comunicação política. Imagens, vídeos, áudios e personagens sintéticos passaram a fazer parte do debate público, ampliando as possibilidades de produção e circulação de conteúdos políticos — mas também os riscos para a integridade da informação e para o processo eleitoral.

É nesse contexto que o Observatório IA nas Eleições, iniciativa da Data Privacy Brasil e do Aláfia Lab, acompanha como a inteligência artificial generativa vem sendo utilizada na política brasileira. O Observatório funciona como um repositório de casos de produção, amplificação e manipulação de conteúdos de conotação política que podem impactar a democracia e a integridade da informação. A iniciativa também busca identificar, sistematizar e analisar as diferentes formas pelas quais essas tecnologias podem interferir, direta ou indiretamente, nos processos eleitorais.

Desde 2024, quando o uso de ferramentas de IA generativa passou a ganhar espaço nas eleições brasileiras, o Observatório vem acompanhando a evolução desse fenômeno. O novo relatório, “IA na pré-eleição: principais achados e tendências”, reúne os resultados do monitoramento realizado em 2026 e mostra que a tecnologia deixou de ocupar um espaço experimental para se tornar um recurso recorrente na comunicação política.

413 casos de uso de IA foram identificados

Entre 1º de janeiro e 15 de agosto de 2026, o Observatório identificou 413 casos de uso de inteligência artificial em publicações relacionadas à política brasileira, uma média de 1,8 casos por dia. A maior parte circulou no Instagram (208), seguido por TikTok (89) e X (68). Juntas, as três plataformas concentraram 88,4% dos casos monitorados.

Os vídeos foram o principal formato utilizado: representaram 68% dos casos, enquanto imagens corresponderam a 30% e áudios a aproximadamente 2%.

Os números mostram que o conteúdo sintético já ocupa um espaço significativo na circulação de mensagens políticas nas redes sociais, especialmente em plataformas baseadas em formatos audiovisuais de grande alcance.

Deepfakes de figuras políticas são predominantes

Um dos principais achados do levantamento é a forte presença de deepfakes. Mais de 81% dos casos identificados – 336 conteúdos – manipularam imagens ou áudios de pessoas públicas. A reprodução artificial da imagem e da voz de figuras conhecidas se consolidou, assim, como uma das principais formas de utilização da IA no contexto político.

Entre os principais alvos estão o presidente Lula, com 112 casos, seguido por Flávio Bolsonaro (57), Jair Bolsonaro (38), Alexandre de Moraes (13) e Nikolas Ferreira (10). Também aparecem entre os alvos Janja da Silva, Eduardo Bolsonaro, Dias Toffoli, Michelle Bolsonaro e Fernando Haddad.

Os usos, contudo, não foram homogêneos. O relatório identificou deepfakes utilizados em contextos de humor e sátira, mas também para atribuir a figuras públicas falas que não fizeram, simular acontecimentos que não ocorreram, divulgar falsas pesquisas eleitorais e produzir conteúdos descontextualizados ou falsos.

A maioria dos conteúdos não informou o uso de IA

Outro ponto de atenção é a falta de transparência. Dos 413 casos analisados, 260, aproximadamente 63%, não apresentaram qualquer indicação de que o conteúdo havia sido produzido ou modificado por inteligência artificial.

A ausência de sinalização é especialmente relevante diante das regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que determinam que conteúdos sintéticos utilizados na propaganda eleitoral sejam identificados de maneira explícita, destacada e acessível.

O monitoramento também encontrou casos publicados por políticos e partidos sem a devida sinalização. Além disso, quando a IA era identificada, não havia um padrão único: os avisos apareciam em legendas, textos sobre as imagens, ferramentas das próprias plataformas ou marcas d’água.

Para além do cumprimento formal das regras, o cenário coloca uma questão importante para o debate público: como garantir que as pessoas consigam reconhecer quando estão diante de um conteúdo produzido ou alterado artificialmente?

Políticos e partidos também incorporaram a IA à comunicação

Dos 413 casos identificados, a maior parte (64%) foram publicados por perfis ou páginas anônimas, o que corresponde a 264 conteúdos. Conteúdos gerados por IA e publicados por políticos e partidos corresponderam 35,1% dos casos, isto é, 145 conteúdos. No período, foram registradas 92 publicações de políticos e 53 de partidos.  

Entre os conteúdos publicados por políticos estão Flávio Bolsonaro (13), seguido por Eduardo Bolsonaro (2), Mário Frias (10), Romeu Zema (5) e Sóstenes Cavalcante (3). Em relação aos partidos, o observatório identificou 28 conteúdos do PL, 4 pelo PT e 2 pelo PSDB. Republicanos, União Brasil, PSOL e MDB também usaram IA em pelo menos uma publicação no período.Entre esses conteúdos, 88% envolveram a criação, substituição ou alteração digital da imagem ou da voz de pessoas, enquadrando-se na definição de deepfake utilizada pelo TSE.

O levantamento mostra ainda que a IA foi frequentemente utilizada para representar adversários políticos. Entre os conteúdos publicados por políticos, 65% foram utilizados para críticas ou ataques e, dentro desse conjunto, 67% circularam em contextos de sátira ou humor.

Isso reforça a necessidade de analisar cada conteúdo considerando não apenas a existência de uma manipulação sintética, mas também seu contexto, finalidade e forma de circulação.

Desinformação e acontecimentos do debate público

A inteligência artificial também foi utilizada para produzir conteúdos com potencial desinformativo. Dos 413 casos identificados, 163, cerca de 40%, foram classificados como desinformação, enquanto 250 (60%) circularam em contextos de sátira ou humor. Independentemente dessa classificação, 64,5% dos conteúdos tinham como intuito criticar ou atacar políticos ou causas.

O Observatório encontrou, por exemplo, imagens e vídeos sintéticos que simulavam manifestações que nunca aconteceram, deepfakes de jornalistas anunciando falsas pesquisas eleitorais e áudios com vozes manipuladas de figuras públicas.

Temas que ganharam destaque no debate nacional também se transformaram em matéria-prima para conteúdos sintéticos. O caso envolvendo o Banco Master apareceu em ao menos 41 publicações geradas por IA envolvendo políticos, metade delas com conteúdo desinformativo. Carnaval, Copa do Mundo, manifestações políticas e outros acontecimentos também foram utilizados para produzir narrativas artificiais.

A IA também pode ampliar a violência política de gênero

Outro alerta importante do relatório diz respeito à violência política de gênero.

Durante a pré-campanha, foram identificados pelo menos 11 conteúdos sintéticos utilizados para atacar mulheres na política, jornalistas ou outras figuras proeminentes do debate eleitoral. Os conteúdos apresentavam discursos preconceituosos, reforçavam estereótipos e utilizavam a manipulação digital como instrumento de ataque.

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) foi o principal alvo, com cinco conteúdos identificados, todos com teor transfóbico. Também foram encontrados conteúdos envolvendo Janja da Silva, Míriam Leitão e Michelle Bolsonaro.

O relatório chama atenção ainda para a criação de perfis eróticos inteiramente gerados por IA que passaram a publicar conteúdos de apoio político a pré-candidatos. Em um dos casos, uma identidade sintética foi utilizada para simular a participação em uma caminhada política, sugerindo uma nova forma de fabricação artificial de apoio e engajamento.

Esses episódios mostram que os impactos da IA nas eleições não se limitam à desinformação. A tecnologia também pode ser instrumentalizada para ataques discriminatórios, manipulação reputacional e produção de identidades fictícias, ampliando formas já existentes de violência política e de gênero.

Chatbots ainda indicam e ranqueiam candidatos

O relatório também apresenta os resultados de um acompanhamento específico sobre o comportamento de chatbots de inteligência artificial.

Entre abril e agosto, o Observatório testou mensalmente cinco ferramentas gratuitas disponíveis no Brasil como o ChatGPT, Gemini, Grok, Deepseek e Meta AI utilizando 11 prompts idênticos desenvolvidos pelas equipes do Aláfia Lab e da Data Privacy Brasil. O objetivo era avaliar se as ferramentas estavam cumprindo as novas regras do TSE, especialmente aquelas relacionadas à recomendação, ao ranqueamento e à indicação de candidatos.

Os resultados mostraram que, ao longo da pré-campanha, todos os chatbots testados compartilharam informações, orientações ou indicações que poderiam influenciar o debate público e a escolha de voto dos cidadãos. As respostas, entretanto, variaram entre as ferramentas e também ao longo dos meses.

Com o início da propaganda eleitoral, em 17 de agosto, novos testes foram realizados. Gemini e Deepseek alteraram seu comportamento, enquanto Grok e Meta AI continuaram respondendo a perguntas que solicitavam listas de candidaturas, rankings de propostas ou indicações para perfis específicos.

O que os dados revelam sobre as eleições de 2026?

Os resultados apontam para uma mudança importante: a IA já não é apenas uma tecnologia experimental no debate eleitoral brasileiro. Ela está sendo incorporada por políticos, partidos, eleitores e plataformas como ferramenta de produção, circulação e disputa de narrativas.

Ao mesmo tempo em que amplia as possibilidades de comunicação política, a tecnologia cria novos desafios para a transparência, a proteção de direitos e a integridade do processo eleitoral.

O cenário observado pelo Observatório reforça a importância de acompanhar não apenas os conteúdos manifestamente desinformativos, mas também as diferentes formas de manipulação sintética, os mecanismos de circulação e recomendação das plataformas e o uso da IA por atores políticos e institucionais.

Mais do que identificar conteúdos falsos, é preciso compreender como essas tecnologias estão alterando as condições de produção e circulação da informação política e quais responsabilidades devem ser atribuídas aos diferentes atores envolvidos.

Acesse o relatório completo

O relatório “IA na pré-eleição: principais achados e tendências” apresenta os dados completos, a análise das principais tendências identificadas e a metodologia utilizada pelo Observatório IA nas Eleições.

Acesse o relatório completo aqui

 

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