A Data Privacy Brasil e o Aláfia Lab lançam, por meio do Observatório IA nas Eleições, o relatório “Ei, chat: em quem eu voto? Testando a conformidade de chatbots de IA às resoluções do TSE para eleições 2026”. O estudo examina como chatbots disponíveis no Brasil tratam perguntas sobre política eleitoral, com foco em respostas que listam pré-candidatos, comparam propostas e indicam nomes para diferentes perfis de eleitores.

A análise foi realizada em abril, após a publicação da nova resolução do Tribunal Superior Eleitoral sobre inteligência artificial nas eleições de 2026. As equipes da Data Privacy Brasil e do Aláfia Lab submeteram 14 perguntas idênticas a cinco ferramentas gratuitas: ChatGPT, Gemini, Grok, Deepseek e Meta AI. O objetivo era observar se os sistemas traçavam perfis, ranqueavam propostas ou recomendavam pré-candidatos à Presidência da República.

O relatório não apresenta os achados como infrações já consumadas naquele momento. O estudo registra respostas que exigem atenção antes da aplicação das regras eleitorais durante a propaganda.

Para as eleições de 2026, o TSE passou a prever regras específicas para provedores de aplicação que ofereçam sistemas de inteligência artificial ou tecnologia equivalente, categoria que inclui os chatbots testados. Durante o período de propaganda eleitoral, esses provedores não podem ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidaturas, campanhas, partidos, federações ou coligações. A norma também proíbe respostas automatizadas que emitam opinião, indiquem preferência eleitoral, recomendem voto ou favoreçam ou desfavoreçam candidaturas de forma direta ou indireta.

O primeiro ponto observado foi a forma como as ferramentas apresentaram nomes de pré-candidatos. Todos os cinco chatbots responderam ao pedido de identificação e perfilamento. Apenas o Grok organizou a lista em ordem alfabética. Nas demais ferramentas, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) apareceram em primeiro e segundo lugar, sem explicação sobre o critério usado para ordenar os nomes.

O estudo também registrou rankings por área temática. As cinco ferramentas classificaram pré-candidatos em temas como Economia, Segurança Pública, Educação e Meio Ambiente. Em economia, Romeu Zema (Novo) apareceu em primeiro lugar nas quatro ferramentas que aceitaram ranquear as propostas. Em educação, Lula foi o principal indicado por três chatbots. Em segurança pública, Ronaldo Caiado ocupou a primeira posição nas cinco ferramentas.

As respostas também indicaram falta de transparência sobre os critérios usados. Os chatbots apresentaram parâmetros para justificar avaliações sobre pré-candidaturas, mas nem sempre de forma clara ou acompanhada de referências verificáveis. Em segurança pública, por exemplo, o Gemini mencionou “inovação e impacto no combate ao crime”, enquanto o Deepseek afirmou considerar “clareza das medidas, potencial de impacto e grau de detalhamento apresentado publicamente”. O Grok trouxe critérios mais detalhados e citou veículos de imprensa e relatórios de mercado, mas não apresentou links ou referências diretas.

Outro ponto identificado foi o uso de juízos de valor. Nas respostas sobre propostas e candidaturas, as ferramentas usaram expressões como “mais detalhadas”, “mais qualificadas”, “mais radicais”, “mais consistentes” e “mais equilibradas”. Esse tipo de formulação aproxima a resposta automatizada de uma avaliação política, especialmente quando aparece em listas ordenadas ou em comparações entre pré-candidatos.

A pesquisa também testou perguntas que simulavam perfis de eleitores. Quatro das cinco ferramentas recomendaram candidatos a partir de informações como gênero, idade, região e posição ideológica. Para eleitoras conservadoras do Centro-Oeste, quatro chatbots indicaram Ronaldo Caiado como primeira opção. Para eleitores progressistas do Nordeste e do Norte, Lula foi indicado por quatro ferramentas. Para eleitores conservadores do Sul e do Sudeste, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema apareceram como opções principais.

A Meta AI teve comportamento diferente nos pedidos de indicação direta. A ferramenta recusou solicitações para apontar um “candidato ideal” para perfis específicos e afirmou que a escolha de uma candidatura é uma decisão pessoal. Mesmo assim, em perguntas sobre propostas por área, a Meta AI apresentou listas em ordens diferentes a cada comando. O relatório trata esse comportamento como uma forma indireta de ranqueamento.

O estudo também identificou respostas que estimulavam a continuidade da conversa sobre comparações políticas. O Gemini apresentou novas perguntas ao usuário. O ChatGPT sugeriu refazer rankings com outros critérios, como impacto no emprego, controle da inflação ou atração de investimentos internacionais. Essas respostas podem prolongar a interação e gerar novas formas de comparação entre pré-candidaturas.

Realizado pela Data Privacy Brasil e pelo Aláfia Lab, o Observatório IA nas Eleições reúne casos de uso de IA generativa em conteúdos políticos que possam afetar a democracia e a integridade da informação.

O relatório completo está disponível neste link.

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